{"id":10390,"date":"2019-05-15T09:00:23","date_gmt":"2019-05-15T12:00:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/?p=10390"},"modified":"2019-05-15T09:00:24","modified_gmt":"2019-05-15T12:00:24","slug":"ex-morador-de-rua-conta-como-persistiu-superou-obstaculos-e-mudou-de-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paranapraia.com.br\/index.php\/2019\/05\/15\/ex-morador-de-rua-conta-como-persistiu-superou-obstaculos-e-mudou-de-vida\/","title":{"rendered":"Ex-morador de rua conta como persistiu, superou obst\u00e1culos e mudou de vida"},"content":{"rendered":"\n<p>A vida do cozinheiro Edimilson Fernandes, 41 anos, \u00e9 digna de um livro (na verdade ele j\u00e1 est\u00e1 sendo escrito e ser\u00e1 lan\u00e7ado dentro de alguns meses). Passou por tantos altos e baixos, que sua hist\u00f3ria \u00e9 um daqueles aprendizados que a vida nos apresenta de nunca desistirmos de um sonho. No caso dele, ser cozinheiro. Ele j\u00e1 foi desempregado e teve que morar na rua, mas tamb\u00e9m teve altos sal\u00e1rios e nunca desistiu do seu grande objetivo. Uma hist\u00f3ria t\u00e3o rica que ele decidiu compartilhar com o mundo e ensinar \u00e0s pessoas a terem um objetivo, nunca perderem o foco e n\u00e3o deixarem de sonhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a inf\u00e2ncia, Edimilson era a \u201covelha negra\u201d da fam\u00edlia. N\u00e3o que ele fizesse coisas erradas, mas seu g\u00eanio forte, sua teimosia e o fato de sempre insistir no que queria fizeram a fam\u00edlia enxergar ele desta forma. Teve uma inf\u00e2ncia feliz com os pais em Santa Maria (RS), onde nasceu, e certo dia foi morar com um tio, artista circense, com quem viajou o Brasil e aprendeu a mexer com fibra de vidro. Fazia desde cenografia para espet\u00e1culos teatrais, at\u00e9 pe\u00e7as de carros para a Stock Car.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Edimilson sentia-se perdido dentro de si. Tudo o que ganhava, gastava se divertindo, n\u00e3o tinha um foco na vida e acabava ficando angustiado. Ele sentia que precisava buscar algo diferente, com um significado verdadeiro. Ent\u00e3o sonhou em seu um cozinheiro renomado. Nesta \u00e9poca, ele trabalhava para o piloto da Stock Car Thiago Marques, mas decidiu mudar. Queria voltar a estudar (para aprender a gastronomia) e come\u00e7ar a trilhar seu caminho neste novo universo. Largou o sal\u00e1rio de pouco mais de R$ 2 mil para ganhar apenas R$ 780 limpando banheiro de restaurante. Uma mudan\u00e7a brusca de padr\u00e3o de vida que o obrigou a ir morar na rua pela primeira vez. Pouco tempo depois, perdeu o emprego.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Sonho<\/h3>\n\n\n\n<p>Edimilson ainda se sentia perdido, perambulava por a\u00ed e dormia onde deixavam. Certo dia foi \u00e0 uma ag\u00eancia do Sine (Sistema Nacional de Empregos) procurar trabalho. J\u00e1 tinha conseguido uma oportunidade, estava na fila para fazer a ficha do emprego e quase na hora de ser chamado viu um cartaz de um curso gratuito de confeitaria. \u201cEu me lembrei do chef de cozinha l\u00e1 do hotel Mabu, onde trabalhei, que sempre me falava: estude! E aquele cartaz me balan\u00e7ou muito, porque era a oportunidade de chegar mais perto do meu sonho. Sa\u00ed da fila e fui l\u00e1 me informar do curso, em outra sala. Me falaram que eu tinha que ir direto na escola que estava dando o curso\u201d, disse Edimilson. Mas chegando l\u00e1, soube que as vagas gratuitas j\u00e1 tinham sido completadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o se conformou. Falou que tinha deixado para tr\u00e1s um emprego certo para seguir um sonho, e que n\u00e3o sairia dali sem a oportunidade. Ficou 20 minutos argumentando com o funcion\u00e1rio da escola, at\u00e9 que a diretora, que de longe observava a tentativa de Edimilson, decidiu lhe dar uma vaga no curso. Enquanto estudava, ele dormia em num albergue da prefeitura, na Rua Rockefeller. Foi t\u00e3o bom aluno, que quando terminou o curso de confeitaria ganhou outra bolsa para um curso de panifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Insistente e teimoso<\/h3>\n\n\n\n<p>O ex-morador de rua queria mesmo era ser cozinheiro. Por isto, pediu ajuda de uma ex-primeira dama de Curitiba para conseguir uma bolsa de estudo no Senac. Como a ajuda demorou demais, ele pr\u00f3prio foi ao Senac falar direto com o diretor geral. Depois de insistir no contato e entregar em m\u00e3os uma carta escrita a pr\u00f3prio punho, contando sua hist\u00f3ria, Edimilson conseguiu uma bolsa integral para o t\u00e3o sonhado curso de cozinheiro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.tribunapr.com.br\/cacadores-de-noticias\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2019\/05\/EDMILSON-COZINHEIRO_FR-13-w.jpg\" alt=\"Foto: Felipe Rosa\/Tribuna do Paran\u00e1\" class=\"wp-image-28271\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Foto: Felipe Rosa\/Tribuna do Paran\u00e1<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu sempre fui teimoso, insistente. Todos viam isso como um defeito. Aprendi a us\u00e1-lo a meu favor\u201d, analisa ele, que logo depois do come\u00e7o das aulas voltou a trabalhar. N\u00e3o com o que queria ainda \u2013 voltou a fazer pe\u00e7as para uma equipe de Stock Car e chegou a um sal\u00e1rio de mais de R$ 4 mil -, o que lhe daria uma vida confort\u00e1vel. Estudava de manh\u00e3 e trabalhava a tarde, at\u00e9 o anoitecer.<\/p>\n\n\n\n<p> <br>Novamente, no entanto, a vida lhe apresentou uma decis\u00e3o dif\u00edcil. Edimilson foi convocado a viajar o Brasil junto com a equipe de Stock Car. \u201cFiquei numa encruzilhada, porque o sal\u00e1rio era bom e eu precisava me manter. Mas eu batalhei muito para conseguir aquela bolsa de estudo e n\u00e3o podia desistir do meu sonho. Pedi demiss\u00e3o e continuei o curso\u201d, diz ele, que tinha pouco mais de R$ 6 mil guardados para se manter. Uma hora o dinheiro acabou e ele novamente foi morar na rua. <\/p>\n\n\n\n<p>Foram novamente tempos dif\u00edceis, tendo que dormir nas cadeiras da rodoferrovi\u00e1ria, onde mal conseguia deitar (dormia sentado), enquanto carregava o celular em uma das tomadas do local. N\u00e3o tinha paz, pois sempre era retirado pelos seguran\u00e7as. Um dia ele foi dormir debaixo de uma marquise na esquina da Avenida Sete de Setembro com a Rua Coronel Dulc\u00edcio, no Batel. A partir dali, tudo mudou.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Foco e persist\u00eancia<\/h3>\n\n\n\n<p>Edimilson passou sete meses morando debaixo de uma marquise, na Avenida Sete de Setembro, no Batel. Dormia com gente que usava drogas e bebia bem ao seu lado. De vez em quando, via gente armada, inclusive homens que se identificavam como \u201cpoliciais\u201d e levavam moradores da marquise embora num carro. Os moradores nunca mais eram vistos a partir dali. Por sobreviv\u00eancia, Edimilson se enfiava debaixo de seu cobertor e fazia como os tr\u00eas macaquinhos: n\u00e3o vejo, n\u00e3o ou\u00e7o, n\u00e3o falo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.tribunapr.com.br\/cacadores-de-noticias\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2019\/05\/EDMILSON-COZINHEIRO_FR-14-w.jpg\" alt=\"Foto: Felipe Rosa\/Tribuna do Paran\u00e1\" class=\"wp-image-28272\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Foto: Felipe Rosa\/Tribuna do Paran\u00e1<\/p>\n\n\n\n<p>Ele chegava mais cedo que todo mundo no Senac, antes das 7h, para conseguir tomar um banho e depois tomar o caf\u00e9 oferecido aos bolsistas. Ningu\u00e9m l\u00e1 sabia da sua situa\u00e7\u00e3o, mas dias depois, uma amiga pediu para fazer uma foto dele com a doma e postou no Facebook. A foto viralizou e chegou numa emissora de TV (RIC), que quis fazer uma reportagem. Ele topou contar sua hist\u00f3ria, mas sem mostrar o rosto. N\u00e3o adiantou, pois os colegas de Senac reconheceram sua voz e ele enfrentou dias de olhares diferente. Sentindo-se desconfort\u00e1vel, Edimilson resolveu contar tudo para a professora, com medo de que perdesse a bolsa. O que ele n\u00e3o esperava era ouvir que a professora tinha orgulho dele. \u201cNossa, tirei um peso enorme das costas\u201d, revelou ele, que depois de se formar, conseguiu emprego num restaurante e conseguiu alugar uma casinha.<\/p>\n\n\n\n<p>\n\nMas pensa que a vida de Edimilson se encaminhou? Novamente em busca de um sonho (de construir um \u2018boteco gastron\u00f4mico\u2019), ele tomou decis\u00f5es surpreendentes. O cozinheiro j\u00e1 estava com 39 anos e, trabalhando como empregado, acreditava que precisaria de pelo menos mais 20 anos para juntar o dinheiro para comprar sua casinha, para nos fundos construir o boteco, onde poderia receber os amigos e cozinhar para eles. Edimilson decidiu abrir uma empresa e durante suas pesquisas viu que ela poderia ser \u201cincubada\u201d por um instituto de tecnologia de Curitiba. Inscreveu-se no edital e foi selecionado.\n\n<\/p>\n\n\n\n<p>Mas depois de ter todo o aux\u00edlio para abrir a empresa, Edimilson disse que se decepcionou com a incubadora. \u201cQuando entreguei os documentos para concorrer ao edital, mostrei junto as reportagens que escreveram sobre mim. Depois eu fui ver que n\u00e3o me selecionaram pelo meu talento, mas para a m\u00eddia que eu podia promover para eles\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando me dei conta do porqu\u00ea de tudo isso, que me usaram apenas de trampolim midi\u00e1tico, resolvi tirar minha empresa de l\u00e1. Faltou pouco para eu entrar em depress\u00e3o e cometer suic\u00eddio, mas consegui ser forte\u201d, conta o ex-morador de rua, que saiu com uma d\u00edvida de R$ 40 mil a pagar, entre contas pessoais e da empresa.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A reden\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p>Depois disto, v\u00e1rias coisas aconteceram na vida de Edimilson. Ele conseguiu um emprego num hotel, mas foi demitido depois de um tempo e enquanto pensava no que fazer, conheceu a igreja Abba, na qual se batizou e passou a ser frequentador. Ali conheceu um projeto da igreja chamado CreJer, de reabilita\u00e7\u00e3o de dependentes qu\u00edmicos, quando o pastor Roberto Carlos o convidou para dar uma palestra aos pacientes da reabilita\u00e7\u00e3o, contando sua hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.tribunapr.com.br\/cacadores-de-noticias\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2019\/05\/EDMILSON-COZINHEIRO_FR-6.jpg\" alt=\"Foto: Felipe Rosa\/Tribuna do Paran\u00e1\" class=\"wp-image-28270\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Foto: Felipe Rosa\/Tribuna do Paran\u00e1<\/p>\n\n\n\n<p>Edimilson foi conhecer a ch\u00e1cara onde est\u00e1 o CreJer e onde daria a palestra. \u201cEra como um telefone tocando dentro de mim e eu precisava atender aquela liga\u00e7\u00e3o. Eu precisava de ajuda, mas percebi que ali dentro tinha muita gente precisando de mim tamb\u00e9m\u201d, diz Edimilson, que acabou indo morar l\u00e1, onde trabalha voluntariamente como cozinheiro e faz palestras para encorajar os pacientes a terem um sonho e nunca desistirem dele. Com a ajuda de um jornalista, est\u00e1 escrevendo sua biografia e pretende ajudar mais gente.<br><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO boteco ficou em segundo plano, porque Deus me convocou e eu tenho que atender esse chamado. H\u00e1 pessoas que me ajudaram, porque eu nunca desisti de lutar. Isso que eu preciso mostrar ao mundo. Eu agrade\u00e7o a Curitiba por ter me dado essa hist\u00f3ria e a Deus por ter me dado essa chance\u201d, diz ele. O livro est\u00e1 em produ\u00e7\u00e3o por uma jornalista e deve ser lan\u00e7ado dentro de alguns meses.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.tribunapr.com.br\/cacadores-de-noticias\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2019\/05\/EDMILSON-COZINHEIRO_FR-1.jpg\" alt=\"Foto: Felipe Rosa\/Tribuna do Paran\u00e1\" class=\"wp-image-28269\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>TribunaPR<br><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida do cozinheiro Edimilson Fernandes, 41 anos, \u00e9 digna de um livro (na verdade ele j\u00e1 est\u00e1 sendo escrito e ser\u00e1 lan\u00e7ado dentro de alguns meses). Passou por tantos altos e baixos, que sua hist\u00f3ria \u00e9 um daqueles aprendizados que a vida nos apresenta de nunca desistirmos de um sonho. 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