O isolamento social provocou mudanças drásticas de comportamento das pessoas, fazendo com que a casa se tornasse o local principal para viver, comer e se divertir. Confira como “novo normal” tem influenciado na cesta de compras dos consumidores e na rotina de alimentação dos lares brasileiros

A casa tornou-se o centro da vida das pessoas com as medidas de isolamento social adotadas em todo o mundo para o controle do novo coronavírus. E a cozinha ganhou um papel de destaque em grande parte dos lares. 

Com restaurantes, bares, cafeterias e outros estabelecimentos fechados pela quarentena por longos períodos, não restou alternativa senão a de colocar a mão na massa. E, em muitos casos, reaprender o gosto pela gastronomia. 

Segundo a Qualibest, instituto de pesquisa de mercado, na primeira rodada de pesquisas para entender o impacto da pandemia no comportamento do consumidorde forma geral feita entre 2 e 6 de abril em parceria com a Galuniun, 95% dos brasileiros entrevistados estavam ficando em casa por medo de se contaminar. E destes, 93% estavam cozinhando em casa.

Os serviços de delivery de alimentos prontos também passaram a ser uma alternativa principalmente para as pessoas que não gostam de cozinhar e também para mães e pais que precisam conciliar o home office, os cuidados com a casa e com os filhos full time, porque as escolas e creches estão fechadas. 

Relatório da Kantar, consultoria especializada de inteligência de mercado, constatou que no período de isolamento social, os brasileiros fizeram com que delivery de alimentos saltasse de 19% para 34%. 

A nova rotina de distanciamento social refletiu imediatamente na frequência de ida aos supermercados e nos carrinhos de compras dos brasileiros. Os carrinhos estão mais cheios e as idas aos mercados, mais espaçadas, aponta pesquisa da Nielsen Brasil, instituto de inteligência de mercado. Na última semana de março, a frequência de compras caiu 6,5%, enquanto o número de itens no carrinho subiu 22%.

A redução na renda provocada pelo aumento dos níveis de desemprego, as previsões econômicas e de negócios em queda e o receio de um futuro incerto também têm impactado diretamente nos gastos mensais com alimentação.

Novos hábitos de compra

Com o confinamento, a casa passou a ser o palco principal para viver, comer e se divertir. E os alimentos, é claro, ocupam um papel de protagonistas neste cenário. 

Relatório Consumer Insights da Kantar confirma que o isolamento social por mais de dois meses alterou os hábitos de consumo dos brasileiros: houve um aumento de 27% nas ocasiões de consumo de alimentos e bebidas dentro dos lares (crescimento de 25% no café da manhã; 30% no almoço e jantar; 21% em lanches rápidos).

“Alguns hábitos e rotinas de compras que os consumidores tinham fora de casa foram transferidas para dentro do lar”, afirmou o gerente de Usage & Out of Home da Kantar, Renan Morais, em entrevista à Doce Revista. 

Levantamento da Nielsen Brasil, confirma que, a exemplo de países em outras partes do mundo, os consumidores latino-americanos mudaram drasticamente seus hábitos de compra em meio à pandemia: 50% das famílias brasileiras, mexicanas e colombianas afirmam ter amplo estoque de despensa em categorias específicas por, pelo menos, três semanas.

Os dados apontam uma procura maior por produtos básicos para cozinhar em casa, como massas, arroz, feijão, farinha, óleo e produtos frescos. Além de alimentos práticos para o dia a dia como biscoitos e snacks de frutas, por exemplo, que gerou um aumento de 11% na categoria industrializados. 

Este comportamento, segundo a Nielsen, favoreceu supermercados, hipermercados e atacarejos, que vendem quantidades maiores. Do total das compras feitas em março, 61% foram nesse tipo de varejo.

Outra tendência que ganhou força é o comércio eletrônico. Os brasileiros aumentaram suas compras online, estão usando mais os meios digitais de pagamentos e devem continuar com esses hábitos de compra e consumo no pós-pandemia. Segundo estudo realizado pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), 61% dos clientes que compraram online durante a quarentena aumentaram o volume de compras devido ao isolamento social. E o destaque foi para compras de alimentos e bebidas para consumo imediato que cresceram 79%. 

O dado é confirmado pela Kantar, que indica que, no Brasil, em média, o e-commerce cresceu 2,3 vezes nas 4 semanas após o bloqueio, indicador que sobre para 3,3 vezes quando se fala em América Latina.

Categorias em alta

Observando as categorias de biscoitos, massas alimentícias, pães e bolos industrializados, as pessoas estão optando por produtos com maior shelf life, praticidade e um bom custo benefício, o que gerou, entre fevereiro e maio, um aumento médio de 20% no volume de vendas das categorias, informou o presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (Abimapi), Claudio Zanão, em entrevista ao portal Newtrade.

“Macarrão, biscoito e pão são de consumo básico e devem ter crescimento mais consistente até o final deste ano, de 2% a 4%, devido ao maior número de refeições feitas em casa”, reforçou Zanão.

Outras categorias de alimentos industrializados ganharam mais espaço nas despensas e refrigeradores das famílias brasileiras, como as carnes industrializadas, pratos prontos, massas refrigeradas, misturas para pães e bolos, pães de queijo congelados e vinhos de mesa.

Espaço cativo para indulgências

Embora os consumidores estejam mais cautelosos com os gastos e procurem por itens mais baratos, eles não deixaram de “presentear-se” com produtos indulgentes. 

“O consumidor tem se dado alguns luxos. Se não pode ir ao bar, compra uma cerveja diferenciada. Uma certa indulgência, um presente para passar por este momento”, afirmou a gerente de Atendimento ao Varejo da Nielsen Brasil, diz Fernanda Vilhena, em entrevista à Agência O Globo.

Com isso, segundo a Nielsen Brasil, cresceram as vendas de produtos como chocolates, salgadinhos e snacks

Em pesquisa realizada pela Mintel, instituto de inteligência de mercado, 18% dos consumidores brasileiros disseram que estão comendo alimentos e bebidas mais indulgentes, como sorvete, chocolate e pizza, para ajudá-los a lidar com a ansiedade.

Os dados de delivery atestam este espaço para a indulgência. Entre os consumidores que têm usado este serviço, o item mais pedido é a pizza, seguida por outros alimentos como doces, sorvetes.

 “Como os brasileiros estão cozinhando mais, estão procurando compensações, como mais indulgência e diversão”, afirmou Claudio Nogueira, gerente de Planejamento da Qualibest, durante podcast no BHB Foods e suplementos, sobre a pesquisa inédita “O hábito de compra do consumidor durante o coronavírus”. 

Estudo da Kantar acrescenta que os adultos e jovens adultos são os targets que mais impulsionaram o consumo de indulgências via delivery, com destaque para fast food, pizzas e refeições prontas na região metropolitana de São Paulo.

Renan Morais, com base nos relatórios da Kantar, reforça que o simples prazer é a razão para compras mais buscada no confinamento após mais de dois meses de isolamento social. Se no início da pandemia, o objetivo dos consumidores foi grande estocagem de alimentos e produtos de limpeza e higiene, a partir do final do mês de abril, as opções indulgentes ganharam mais espaço dentro das casas, com destaque para guloseimas, snacks e bebidas. O consumo de ingredientes para doces, confeitos, guloseimas, vinhos e de cerveja cresceu, segundo o relatório.

Momentos gourmet

Em meio às restrições da quarentena e da crise econômica, os brasileiros não abriram mão de seus “momentos gourmet”. Mas os levaram para casa. Em live do jornal Valor Econômico, o CEO Global da JBS, Gilberto Tomazoni, afirmou que durante o período aumentou o movimento no país das lojas da Swift, marca de produtos mais premium da JBS.

Marcas atentas a este movimento estão aproveitando a oportunidade de ajudar os brasileiros a se sentir confiantes em preparar refeições com itens básicos, através de diversas ações de interação virtual. Um exemplo é o da marca Sadia, que utiliza suas redes sociais para auxiliar os consumidores a preparar alimentos.

Outra oportunidade de engajamento das marcas é de contarem com a parceria com chefs de cozinha, por exemplo, para ensinar refeições simples e saborosas em transmissões ao vivo, segundo estudo da Mintel, ou até mesmo dar dicas de culinária em redes como o Twitter, Facebook e Instagram.

Um exemplo são as marcas de confeitaria e chocolates da Duas Rodas, Selecta Chocolates e Mix, que têm apresentado diariamente em vídeos e lives, com a presença de chefs e culinaristas, dicas e receitas voltadas não apenas para transformadores de chocolates, confeiteiros, mas também aos consumidores que estão em casa em quarentena.

Refeições virtuais para aproximar

Segundo a Mintel, o distanciamento social impactou a cultura de compartilhamento de refeições e lanches da América Latina, mas os alimentos reconfortantes podem trazer boas lembranças e animar o ânimo. Em paralelo, conexões on-line têm ajudando a aumentar o bem-estar físico e emocional dos consumidores, à medida que as pessoas encontram maneiras de cozinhar e comer juntas e se sentem próximas, apesar da distância física.

Um exemplo é o da rede Chipotle Mexican Grill, que lançou uma série de almoços virtuais durante a pandemia da Covid-19.

Alimentos para aumentar imunidade

A pandemia da Covid-19 reforçou outra questão que já era importante antes para os consumidores: a preocupação em ter um sistema imunológico saudável. Um indicativo de potencial para as indústrias investirem em alimentos e bebidas que aumentam a imunidade, aponta a Mintel.

Os novos hábitos e estilos de vida que estão norteando o comportamento dos consumidores com a pandemia sinalizam com a possibilidade de se tornarem permanentes. 

“Quando a China começou a diminuir seu bloqueio, notamos pela primeira vez o desenvolvimento de uma ‘economia doméstica’, impulsionada pela escolha dos consumidores de ficar cada vez mais em casa, mesmo quando as restrições de vida diminuem”, afirma a Nielsen.

Ainda é cedo para entender as tendências que foram aceleradas e os hábitos adotados durante este período de restrições que vão permanecer quando as rotinas forem retomadas, ponderou o CEO global da JBS.

Este é um dos desafios que a indústria de alimentos como um todo está enfrentando, mas a observação atenta das marcas aos comportamentos atuais pode trilhar novas oportunidades de negócios para atender as necessidades do consumidor.

duasrodas

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